sábado, 30 de outubro de 2010

Andaluz



Hoje a noite inerte a procura do sono, repousei no peitoril da janela e olhando pra lua vi nitidamente os olhos do meu amor
Venha meu andaluz, sem sela e sem rédea, montado em pêlo, firma na crina, pega carona com o vento, segue as estrela do cruzeiro e me leve até o meu amor.
Tira esta vivente do asfalto, me aparta da fumaça cinzenta, desvia dos gigantes de vidro que tocam o céu e no galope ritmado me leva com cuidado pros braças do meu amor.
Na campina meu amor espera, bota barreada, espora afiada, chapéu quebrado e gibão, cheiro de mato, olho de bicho, mão de laço, alma de boi.
Teu faro de garanhão já sente o odor de estrume, aroma do campo, perfume da flor, meu corpo ardente de ansiedade e paixão recebe o frescor do seu dorso umedecido pelo orvalho da manhã.
Meus ouvidos reconhecem o som do berrante pesado de melancolia sintônico com a voz tosca do peão aboiando o gado, meu paraíso está próximo, corre, voa, esgota neste infinito tempo todas as suas forças e me apeia ligeiro nos sonhos do meu amor.
O sol certeiro aquece pele e pêlo, nossa jornada estanca, assenta na terra, pousa na poeira, para sereno meu andaluz, repousa os cascos, sossega suas asas, você, arauto de minhas esperanças, cumpridor do meu destino, tua missão findada.
Repleta de frenesi no pasto raso me deito, feito fêmea, sobre o pelego brando, onde aguarda desejoso o corpo queimante do meu amor.
Quando já refeito, retoma mansamente meu andaluz, num trote sereno acima das nuvens na trilha da constelação, leve a todos a mensagem luminosa de minha existência.
Agora não sou mais eu, agora sou gado, sou chão, sou curiango, sou remanso, sou viola, sou jequitibá, agora sou suor, suor suave aromático, suor que ungi o rosto campeiro e perfuma inteiro o corpo do meu amor.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

En 622 Los 33

Gracias a la vida que me ha dado tanto
Me dio dos luceros que cuando los abro
Perfecto distingo lo negro del blanco
Y en el alto cielo su fondo estrellado
Y en las multitudes el hombre que yo amo

(Mercedes Sosa)


Que o homem perceba que a vida é o bem mais precioso.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Ainda... silêncio do poeta.

Ainda que eu falasse a língua dos homens.
E falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria.
É só o amor, é só o amor.
Que conhece o que é verdade.
O amor é bom, não quer o mal.
Não sente inveja ou se envaidece.
O amor é o fogo que arde sem se ver.
É ferida que dói e não se sente.
É um contentamento descontente.
É dor que desatina sem doer.
Ainda que eu falasse a língua dos homens.
E falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria.
É um não querer mais que bem querer.
É solitário andar por entre a gente.
É um não contentar-se de contente.
É cuidar que se ganha em se perder.
É um estar-se preso por vontade.
É servir a quem vence, o vencedor;
É um ter com quem nos mata a lealdade.
Tão contrário a si é o mesmo amor.
Estou acordado e todos dormem todos dormem todos dormem.
Agora vejo em parte. Mas então veremos face a face.
É só o amor, é só o amor.
Que conhece o que é verdade.
Ainda que eu falasse a língua dos homens.
E falasse a língua do anjos, sem amor eu nada seria.

(Monte Castelo – Renato Russo)

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Viver despenteada

"Hoje aprendi que é preciso deixar que a vida te despenteie,
por isso decidi aproveitar a vida com mais intensidade...
O mundo é louco, definitivamente louco...
O que é gostoso, engorda. O que é lindo, custa caro.
O sol que ilumina o teu rosto enruga.
E o que é realmente bom dessa vida, despenteia...
- Fazer amor, despenteia.
- Rir às gargalhadas, despenteia.
- Viajar, voar, correr, entrar no mar, despenteia.
- Tirar a roupa, despenteia.
- Beijar à pessoa amada, despenteia.
- Brincar, despenteia.
- Cantar até ficar sem ar, despenteia.
- Dançar até duvidar se foi boa ideia colocar aqueles saltos gigantes essa noite, deixa seu cabelo irreconhecível...
Então, como sempre, cada vez que nos vejamos
eu vou estar com o cabelo bagunçado...
mas pode ter certeza que estarei passando pelo momento mais feliz da minha vida.
É a lei da vida: sempre vai estar mais despenteada a mulher que decide ir no primeiro carrinho da montanha russa, que aquela que decide não subir.

Pode ser que me sinta tentada a ser uma mulher impecável,
toda arrumada por dentro e por fora.
O aviso de páginas amarelas deste mundo exige boa presença:
Arrume o cabelo, coloque, tire, compre, corra, emagreça,
coma coisas saudáveis, caminhe direito, fique séria...
e talvez deveria seguir as instruções, mas
quando vão me dar a ordem de ser feliz?
Por acaso não se dão conta que para ficar bonita
eu tenha que me sentir bonita...
A pessoa mais bonita que posso ser!

O único, o que realmente importa é que ao me olhar no espelho, veja a mulher que devo ser.
Por isso, minha recomendação à todas as mulheres:

Entregue-se, coma coisas gostosas, beije, abrace, dance, apaixone-se, relaxe, viaje, pule, durma tarde, acorde cedo, corra, voe, cante, arrume-se para ficar linda, arrume-se para ficar confortável!
Admire a paisagem, aproveite,
e acima de tudo, deixa a vida te despentear!"