Ontem saindo da casa de uma prima querida, senti dentro do peito uma coisa que não conseguia traduzir. Entrei no carro, liguei o rádio como de costume e uma música inesperadamente decifrou com uma clareza solar o que estava acontecendo.
Uma saudade de cheiro de terra me tomou completamente o coração. Saudades da minha infância no meio do mato, no meio do pasto com cheiro de vaca e estábulo.
Agora no alto da minha maturidade fui invadida por uma feliz nostalgia do tempo que pisava com meus pezinhos de criança nas terras de Botucatu.
A saga sempre começava no fusquinha do meu pai onde inacreditavelmente estavam meu pai, minha mãe, tia Maria, tio Hildo, a Lula, o Zé Francisco e eu, além da bagagem, da sacola de comida da tia Maria com a garrafa de café e da melancia, afinal a viagem Santo André/Botucatu era longa naqueles tempos e uma parada pra comer na estrada era imprescindível.
Os destinos eram Vitoriana e a fazenda do tio Alcides no Rio Bonito, tudo isso lá em Botucatu.
Essas lembranças me tomaram completamente, minha infância no meio da molecada, suja de terra e de curral. Bolo quente e café fresco que a Tia Ida preparava no fogão de lenha que jamais perdia o calor e as panelas, música no alpendre com vista pra represa. Vento fresco de final de tarde, medo de fantasma e de assombração. Ver o vôo do morcego, o barulho dos bichos e a risada da criançada brincando pelo gramado, tomando banho de chuva, amassando barro, guerra de estrume seco e todas as formas de provocação e aproximação.
No pomar todas as frutas, nas hortas todas as verduras, as galinhas no galinheiro, os porcos no chiqueiro comendo lavagem das sobras de nossas farras nas mesas do almoço, os cavalos no pasto, a cachorrada solta pelo quintal.
Os primos reunidos como se todo dia fosse de festa. Os homens juntos na prosa, a mulherada na cozinha preparando de um tudo pra alimentar todos os de casa e os de fora. Sempre uma música de fundo, fosse ela do vento, do radinho de pilha ou das violas.
Que saudades da estrada de terra, da poeira, da chuva com raios e trovões no meio da plantação. A farra logo ao raiar do dia e o sono profundo no fim da noite, o mais perfeito fruto do cansaço de tantas brincadeiras.
O bar da tia Chada, cheio de vida e de viço, o pudim de leite da Tia Tona e o carinho da tia Cidão.
As paçocas, as marias-moles sempre expostas na vitrine do balcão, a bananada no copinho de sorvete com uma pazinha grudada, o povo chegando ao final da lida pra contar todas as histórias de pasto e de boi, tio Adão vendendo pinga e falando de mulher, cachaça, política e futebol.
As esculturas de garrafas do tio Lalo, os potes de doce que deixaram algumas seqüelas no meu quadril até hoje e o cachorro deitado no sofá que não deixava ninguém sair com qualquer coisa na mão, a máquina de costura da Tia Odete a todo o vapor transformando panos em sonhos.
A festa de Nossa Senhora das Vitórias na igrejinha de Vitoriana que juntava de peão até doutor, de moça de vida fácil até moça de fino trato, o baile depois da reza e o churrasco com frango assado no salão da igreja depois da procissão. Os fogos rompendo o céu e a criançada em volta olhando aquela beleza.
A máquina fotográfica do Dado que não perdia nenhum evento e nenhuma pose, festa, casamento, aniversários das crianças, qualquer coisa ficava lá registrada para posteridade.
Os primos atrás das empregadas movidos pelos hormônios próprios da adolescência, descobrindo os segredos do mundo dos adultos. As tardes de pôr-do-sol morrendo na serra, o mais lindo que meus olhos de criança podiam ver e a lua mais bela acompanhada de tantas estrelas que nem dava pra contar e também ninguém se atrevia porque contar estrelas dava verruga na ponta do dedo.
As brincadeiras de roda, de esconde-esconde, de correr sei lá porque e sei lá pra onde. A paisagem de montanha que encontra com o céu, o arco-íris de fim de chuva quando o sol voltava depois do temporal de verão, e a gente gritando “sol e chuva casamento de viúva... chuva e sol casamento de espanhol”. A fogueira nas noites frias de São João, as violas nas canções de amor e saudades, a cantoria, os causos, as histórias muitas vezes inventadas de vida de gado e de peão, de valentias e invernadas, as bebedeiras, as danças, as gargalhadas, a inocência.
Mas tudo passa.... as crianças cresceram, alguns dos velhos já se foram pra nunca mais, a fazenda tem outro dono, o bar fechou, alguns saíram de lá, alguns vieram pra cá, outros sei lá pra onde.
Hoje já mulher feita, com todas as dores e delícias que essa condição me apresenta, busco na memória minha criança suja de terra.
Hoje olho pra selva de pedra da minha janela e busco uma montanha, um céu limpo, um rio, um boi no pasto.
Quero contar estrelas mesmo que verrugas nasçam na ponta dos meus dedos, hoje sinto o cheiro de fumaça dos carros que passam sem identidade e sem alma e desejo o cheiro da terra e dos estrumes das vacas ainda quentes no pasto.
Hoje olho pra mim e busco a criança feliz e faceira, nesta mistura de som, sabor e cheiro que vinha sempre quando os olhos alcançavam a paisagem do interior e o melhor é que sempre a encontro aqui mesmo dentro de mim, com o mesmo sorriso e perfume de mato e os pezinhos sujos de terra.
Você que me lê pode não conhecer todos ou mesmo nenhum dos personagens desta história, nem reconhecer a paisagem, nem a serra nem a represa, talvez você nem saiba a onde fica Botucatu; mas se você, mesmo que só por uma vez na sua vida, sentiu o cheiro do mato, certamente saberá do que falo e sentirá a mesma deliciosa saudade que eu.
Uma saudade de cheiro de terra me tomou completamente o coração. Saudades da minha infância no meio do mato, no meio do pasto com cheiro de vaca e estábulo.
Agora no alto da minha maturidade fui invadida por uma feliz nostalgia do tempo que pisava com meus pezinhos de criança nas terras de Botucatu.
A saga sempre começava no fusquinha do meu pai onde inacreditavelmente estavam meu pai, minha mãe, tia Maria, tio Hildo, a Lula, o Zé Francisco e eu, além da bagagem, da sacola de comida da tia Maria com a garrafa de café e da melancia, afinal a viagem Santo André/Botucatu era longa naqueles tempos e uma parada pra comer na estrada era imprescindível.
Os destinos eram Vitoriana e a fazenda do tio Alcides no Rio Bonito, tudo isso lá em Botucatu.
Essas lembranças me tomaram completamente, minha infância no meio da molecada, suja de terra e de curral. Bolo quente e café fresco que a Tia Ida preparava no fogão de lenha que jamais perdia o calor e as panelas, música no alpendre com vista pra represa. Vento fresco de final de tarde, medo de fantasma e de assombração. Ver o vôo do morcego, o barulho dos bichos e a risada da criançada brincando pelo gramado, tomando banho de chuva, amassando barro, guerra de estrume seco e todas as formas de provocação e aproximação.
No pomar todas as frutas, nas hortas todas as verduras, as galinhas no galinheiro, os porcos no chiqueiro comendo lavagem das sobras de nossas farras nas mesas do almoço, os cavalos no pasto, a cachorrada solta pelo quintal.
Os primos reunidos como se todo dia fosse de festa. Os homens juntos na prosa, a mulherada na cozinha preparando de um tudo pra alimentar todos os de casa e os de fora. Sempre uma música de fundo, fosse ela do vento, do radinho de pilha ou das violas.
Que saudades da estrada de terra, da poeira, da chuva com raios e trovões no meio da plantação. A farra logo ao raiar do dia e o sono profundo no fim da noite, o mais perfeito fruto do cansaço de tantas brincadeiras.
O bar da tia Chada, cheio de vida e de viço, o pudim de leite da Tia Tona e o carinho da tia Cidão.
As paçocas, as marias-moles sempre expostas na vitrine do balcão, a bananada no copinho de sorvete com uma pazinha grudada, o povo chegando ao final da lida pra contar todas as histórias de pasto e de boi, tio Adão vendendo pinga e falando de mulher, cachaça, política e futebol.
As esculturas de garrafas do tio Lalo, os potes de doce que deixaram algumas seqüelas no meu quadril até hoje e o cachorro deitado no sofá que não deixava ninguém sair com qualquer coisa na mão, a máquina de costura da Tia Odete a todo o vapor transformando panos em sonhos.
A festa de Nossa Senhora das Vitórias na igrejinha de Vitoriana que juntava de peão até doutor, de moça de vida fácil até moça de fino trato, o baile depois da reza e o churrasco com frango assado no salão da igreja depois da procissão. Os fogos rompendo o céu e a criançada em volta olhando aquela beleza.
A máquina fotográfica do Dado que não perdia nenhum evento e nenhuma pose, festa, casamento, aniversários das crianças, qualquer coisa ficava lá registrada para posteridade.
Os primos atrás das empregadas movidos pelos hormônios próprios da adolescência, descobrindo os segredos do mundo dos adultos. As tardes de pôr-do-sol morrendo na serra, o mais lindo que meus olhos de criança podiam ver e a lua mais bela acompanhada de tantas estrelas que nem dava pra contar e também ninguém se atrevia porque contar estrelas dava verruga na ponta do dedo.
As brincadeiras de roda, de esconde-esconde, de correr sei lá porque e sei lá pra onde. A paisagem de montanha que encontra com o céu, o arco-íris de fim de chuva quando o sol voltava depois do temporal de verão, e a gente gritando “sol e chuva casamento de viúva... chuva e sol casamento de espanhol”. A fogueira nas noites frias de São João, as violas nas canções de amor e saudades, a cantoria, os causos, as histórias muitas vezes inventadas de vida de gado e de peão, de valentias e invernadas, as bebedeiras, as danças, as gargalhadas, a inocência.
Mas tudo passa.... as crianças cresceram, alguns dos velhos já se foram pra nunca mais, a fazenda tem outro dono, o bar fechou, alguns saíram de lá, alguns vieram pra cá, outros sei lá pra onde.
Hoje já mulher feita, com todas as dores e delícias que essa condição me apresenta, busco na memória minha criança suja de terra.
Hoje olho pra selva de pedra da minha janela e busco uma montanha, um céu limpo, um rio, um boi no pasto.
Quero contar estrelas mesmo que verrugas nasçam na ponta dos meus dedos, hoje sinto o cheiro de fumaça dos carros que passam sem identidade e sem alma e desejo o cheiro da terra e dos estrumes das vacas ainda quentes no pasto.
Hoje olho pra mim e busco a criança feliz e faceira, nesta mistura de som, sabor e cheiro que vinha sempre quando os olhos alcançavam a paisagem do interior e o melhor é que sempre a encontro aqui mesmo dentro de mim, com o mesmo sorriso e perfume de mato e os pezinhos sujos de terra.
Você que me lê pode não conhecer todos ou mesmo nenhum dos personagens desta história, nem reconhecer a paisagem, nem a serra nem a represa, talvez você nem saiba a onde fica Botucatu; mas se você, mesmo que só por uma vez na sua vida, sentiu o cheiro do mato, certamente saberá do que falo e sentirá a mesma deliciosa saudade que eu.
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