quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Tortura

A sala de espera de um dentista, guardada as devidas proporções, poderia ser comparada com o purgatório; sentados naquelas cadeiras, quase sempre desconfortáveis, não sabemos se seremos elevados aos céus ou encarcerados nas profundezas infernais.
O pior de tudo é quando no âmago de nossas expectativas, ouvimos ao fundo, misturado com aquelas típicas músicas orquestradas, o angustiante barulho do monstruoso motor.
As mãos suando, o coração acelerado e para nosso maior desespero, observando nossa terrível agonia, a simpática recepcionista com aquela expressão irônica e com um dissimulado sorrisinho, anda de um lado para o outro, como se em suas mãos estivesse todo o nosso futuro.
Levanta-se o próximo.
Mas espera e novamente o agonizante zumbido da maléfica máquina, que penetra em nossos ouvidos como o som das trombetas que anunciam o juízo final.
Chegado o momento, o dentista com ar próprio dos torturadores, convida-nos a entrar.
Ao entrarmos, deparamos com todo aquele arsenal e de pronto somo convidados a sentar naquela cadeira que mais parece à elétrica, pronta para receber mais um condenado. Naquele exato momento surge em nossas pobres mentes a mais terrível de todas as dúvidas. Qual será o veredicto?
Um aterrorizante tratamento de canal? Uma dolorosa extração do siso? Ou um simples diagnóstico de que nada será necessário fazer, pois nossa dentição poderia ser comparada a do campeão nacional dos Manga-larga Marchador.
Naquela posição constrangedora de pura submissão, ficamos boquiabertos esperando algum sinal que nos leve a crer que nosso sofrimento já está próximo do fim.
Nosso carrasco munido de todos aqueles instrumentos de tortura que com certeza serviriam aos propósitos dos inquisidores medievais começa a anotar em uma ficha, aparentemente inofensiva, o nosso destino.
Depois daqueles instantes onde minutos parecem décadas, a sentença é proferida e a tortura momentaneamente terminada.
Diante de nossa total exaustão, o grande juiz encerra nosso calvário com um sínico sorriso dizendo-nos:
- Boa tarde senhora, até quarta.

Nenhum comentário: